A verdadeira idolatria

A verdadeira idolatria

1ª Eucaristia
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A pobreza voluntária e a castidade consagrada irromperam na história somente, com Cristo. Com Ele, de fato, surgiu o Reino de Deus, único a justificá-los. Ele inaugurou uma nova era, a da redenção, da “volta das criaturas para Deus”, depois da criação, ou da “saída das criaturas de Deus”. O Reino cria uma alternativa, uma nova possibilidade no mundo: os bens terrenos e o próprio matrimônio deixam de ser a única instância, o valor único.

Existe, agora, outra instância, que não anula as anteriores, mas as relativiza, fá-las aparecer por aquilo que são: realidades provisórias, destinadas a desaparecer no mundo novo. Acontece o mesmo que para o conceito de Estado no campo político. O reino de César não é abolido, mas radicalmente relativizado pela presença contemporânea, na história, do Reino de Deus.

            O Reino de Deus já está presente no mundo na pessoa e pregação de Jesus. É necessário não deixa-lo esvair-se, mas agarrá-lo, excluindo tudo o que lhe fizer obstáculo, inclusive, se for preciso, a mão e o olho (Mt 18,8). Em outras palavras, é possível começar a viver desde agora como se há de viver na situação definitiva do Reino, onde os bens terrenos não terão valor algum, mas Deus será “tudo em todos”. A pobreza voluntária tem, assim, uma característica escatológica e profética, como a virgindade consagrada; anunciam, com efeito “os céus novos e a terra nova” (Apc 21,1). A pobreza é profética, porque com o desapego, dos bens terremos, ela proclama, silenciosa, mas eficazmente, que existe outro bem, bem mais seguro e pleno; lembra que a cena deste mundo é passageira; que não temos neste mundo moradia permanente, mas nossa pátria é o céu. Afirma, enfim, o primazia do espirito sobre a matéria, do invisível sobre o visível e da eternidade sobre o tempo.

            A melhor ilustração dessa motivação escatológica profética, temo-la nas parábolas do tesouro escondido e da pérola preciosa: “O Reino do céu é comparável a um tesouro, que estava escondido num campo e que um homem descobriu. Em sua alegria vai, põe à venda tudo o que tem e compra aquele campo” (Mt 13,44). Jesus não diz: “Um home vende todos os seus bens e se põe à procura de um tesouro”. Diz ao invés: “Aquele homem vendeu tudo porque tinha descoberto um tesouro”. A pobreza, como a virgindade, não se escolhe para encontrar o Reino, mas, porque o Reino foi descoberto. A pobreza não é um preço a ser pago pelo Reino; não é a causa de seu surgimento, mas, o efeito. Quantos corações Jesus inflamou de amor à pobreza com essas duas simples imagens do tesouro e da pérola. Elas reaparecem continuamente na história das grandes conversões: “Eu já encontrara a pérola preciosa – diz Agostinho nas Confissões – e precisava vender tudo o que possuía para adquiri-las” (S. Agostinho, Confissões, 8,1-2).

            São parábolas que, depois de ouvidas, têm o poder de não nos deixar tranquilos na nossa mediocridade; fazem entrever a “troca admirável”; nos impelem a tomar a “decisão do momento”, exercem um “fascínio singular” uma “atração” irresistível. Isso significa que, se ainda agora, entre nós, elas encontrassem um coração disposto a deixar-se “envolver” como um convite, dirigido pessoalmente a cada um de nós, por Jesus, poderiam facilmente, hoje mesmo, operar alguma dessas “conversões” de que falam os evangelhos e a história bi milenar da Igreja. “O dinheiro abre qualquer porta” – ouvimos falar. “Sem dinheiro nada feito” – diz o mundo. “O dinheiro é tudo – dizem os materialistas. Uma das aspirações mais profundas do ser humano é o de ter, possuir, ganhar, acumular. Chamamos de felizardos quem dispõe de muitos bens materiais, pois, estes oferecem garantia, segurança, poder. Qual a atitude certa do discípulo de Cristo diante dos bens econômicos?

            A missão de Jesus não foi o de garantir a vida do homem, nesta terra, mas, salvá-la na sua totalidade, perante Deus, Bem Supremo: colocou em movimento a busca da justiça social entre os homens, exigindo, porém, “algo mais”, que nenhuma riqueza pode dar: o crescimento interior do homem perante Deus. Pano de fundo do ensino de Jesus é a afirmação central do Sermão da Montanha: “Procurem antes de tudo o reinado de Deus e a sua justiça, e todas as coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt 6,33). O valor da riqueza e o seu reto uso é um tema predileto dos Evangelhos. A vida humana não pode ser reduzida à busca desenfreada dos bens deste mundo. É preciso evitar dois extremos: o desprezo e a valorização excessiva do dinheiro. O que vale perante Deus é enriquecer “perante Ele” (Lc 12,21); é crescer em virtude, exercer a caridade para além da estrita justiça (Mt 5,6.20); viver a vida terrena como preparação para a vida celeste (Hb 13,14), usar os bens terrenos como instrumentos preciosos para procurar os bens celestes (Lc 16,9).

            “Atenção! Guardai-vos de todo tipo de ganância, pois, mesmo que se tenha muitas coisas, a vida não consiste na abundância dos bens” (Lc 12,15). A parábola das dez virgens revela que existe o perigo de se chegar atrasados à festa do Reino (Mt 25,1-11). O rico é como as formigas, que amassam, como se Deus e o mundo novo não existissem. Isto é vaidade das vaidades, tolice das tolices: “onde está o teu tesouro, lá estará o teu coração” (Mt 6,21). Tolo é aquele que se ilude de ser rico pelo fato de possuir muitos bens. “Ordena aos ricos deste mundo que rejeitem o orgulho” (1Tm 6,17-19); “tu dizes: sou rico, abastado, não careço de nada; em vez, tu és infeliz, miserável, pobre, cego e nu. Esforça-te por converter-te” (Apc 3,17-19); “os que querem enriquecer caem em muitas tentações e laços, em desejos insensatos e nocivos. A raiz de todos os males é o amor ao dinheiro” (1Tm 6,9); “não ajunteis tesouros na terra” – repete Jesus no Evangelho (Mt 6,19-21).

“Certamente conheceis a generosidade de nosso Senhor Jesus Cristo: de rico que era tornou-se pobre por causa de nós, para que vos torneis ricos, por sua pobreza” (2Cor 8,9; Fl 2,5-10); “mortificai os vossos membros, no que tem de terreno: a devassidão, a imoralidade, os maus desejos e a cobiça, que é uma idolatria” (Cl 3,5). É duro o ataque de Jesus contra a posse de bens: “o que foi semeado no meio dos espinhos é quem ouve a Palavra, mas as preocupações do mundo e a ilusão das riquezas sufocam a Palavra, e ela fica sem fruto (Mt 13,22); “em verdade vos digo: dificilmente um rico entrará no Reinos dos Céus. E, digo ainda: é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mt 19, 23-25). A verdadeira riqueza é doar, pois, o que guardamos para nós acabamos perdendo um dia; o que doamos, o guardamos para sempre.

 

Pe. Ernesto.

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